As modas na Ornitofilia


"... As modas na avicultura influenciam mais o mercado do que qualquer outro grupo de factores, como o ditado diz as modas vão e vêm, mas o fundamental deve permanecer estável..."
Fonte: Pedro Ramalho

 

As modas na Ornitofilia

 As modas na avicultura influenciam mais o mercado do que qualquer outro grupo de factores, como o ditado diz as modas vão e vêm, mas o fundamental deve permanecer estável.

À alguns anos começaram a vir alguns lories para o mercado nacional, no início só alguns criadores com maior poder económico é que arriscaram nestes autênticos palhaços com penas mas, de repente, surgiu no mercado um autêntico dilúvio de lories. O mercado Absorveu inicialmente todas estas aves, mas a maioria das pessoas não parou para pensar.

Os lories têm muitos pontos fortes; são extremamente coloridos, têm uma excelente personalidade, e várias espécies são muito fáceis de criar. O que ninguém se lembrou é que têm também alguns defeitos; o primeiro é a sua dieta, uma vez que esta é liquida as fezes serão naturalmente liquidas, o que traz graves problemas de limpeza, depois como é obvio uma dieta deste tipo deteriora-se muito mais rapidamente do que uma dieta de alimentos sólidos, o que obriga a uma troca frequente do alimento, e se é verdade que algumas espécies são das mais fáceis de criar, outras são das mais difíceis disponíveis na avicultura. Mais importante ainda, deveria ter sido óbvio a partir do momento em que algumas das espécies mais raras começaram a aparecer a baixo preço e começaram a aparecer casais adultos criados em cativeiro, que o maior mercado da Europa para aves tinha estourado.

Com efeito, nessa altura do campeonato muitos dos criadores do Benelux estavam a despachar os seus casais de lories para pôr Ringnecks em mutação, os criadores portugueses que entretanto tinham comprado lories assistiram a uma desvalorização brutal das suas aves à medida que as grandes colecções europeias e Sul-africanas se desfaziam dos seus lories e a Indonésia aumentava em muito as suas exportações.

Como muitos criadores Portugueses, assim que viram os preços a cair despacharam logo os seus lories. O mesmo está neste momento a acontecer com os Ringnecks em Portugal, o preço das mutações mais comuns está a preços de banana no Benelux o que implica que o preço em Portugal vai cair a pique não tarda nada.

Razões das modas são várias, mas no geral têm a ver com aquele instinto humano de andarmos uns atrás dos outros. O outro motivo é o económico, como os criadores vêem que está a haver uma grande procura toda a gente tenta entrar no comboio com a consequência, natural, de provocarem o descarrilar do comboio.

Nos canários as modas são uma constante, à medida que os criadores alternam entre as várias raças de porte, e as variedades de cor. À alguns anos a estrela era o Gloster, mas nos últimos tempos a tendência tem sido mais favorável ao Border, na cor o factor vermelho está a passar de moda devido ao custo económico dos pigmentos artificiais, os frisados têm sempre apreciadores e ocasionalmente sofrem uma escalada de efectivos, mas geralmente mantém populações estáveis. Na mó de baixo actualmente estão o Lancanshire, e o Fife Fancy que tem o problema de não ser tão facilmente identificado pelo consumidor como uma raça diferente.

Em termos de psitacideos nos últimos tempos tem havido uma grande descida da população de periquitos normais, devido ao seu baixo preço poucos são os criadores que os mantém logo começa a escassear nalgumas zonas, para alem do desinteresse económico pela sua criação tem também que suportar a concorrência do periquito inglês e do Agapornis roseicolli oumesmo da Caturra, se a situação se mantiver não tardará o dia em que não haverá periquitos para as encomendas.

O caso dos roseicollis, por exemplo, é ilustrativo do processo que aconteceu aos Periquitos. Devido ao baixo preço tem-se tornado uma escolha muito popular para o criador que está a começar, e mesmo para ave de gaiola. Claro que quando esses pequenos criadores começam a criar têm que vender as suas aves de qualquer maneira e baixam ainda mais o preço. Uma vez que o mercado de loja é pouco, ou nada, virado para as mutações menos comuns, a preços mais elevados, a abundância de exemplares de baixo valor e qualidade genética discutível acabam por fazer desequilibrar o escoamento de aves de melhor qualidade. Entra-se num ciclo vicioso e o preço baixa cada vez mais, tornando-se ainda mais atraente para o pequeno criador e fazendo baixar ainda mais o preço.

Quando aparece, como apareceu no periquito e agora no Roseicolli, uma raça de exposição, nitidamente distinta, maior e com proporções físicas diferentes, a raça menor desce abruptamente de estatuto e passa a ser considerada de segunda baixando ainda mais de preço, e levando muitos criadores a desistir de criá-los, o que provoca a longo prazo uma escassez de efectivos que poderá resultar num aumento de preço, e a um renovar de interesse pelos avicultores.

O caso da Arantiga auricapilla é típico, pertencendo a um grupo de 3 espécies muito semelhantes, A. auricapilla, A. jandaia , A. Sol , é de longe a menos colorida do grupo o que levou esta ave da posição de ser uma das conures mais frequentes na avicultura nos inícios dos anos 90, a ter praticamente desaparecido nos finais dos anos 90, sendo substituída pelas suas primas mais coloridas.

Uma ironia da avicultura é que o sucesso de uma espécie traz consigo as sementes do seu insucesso, se esta espécie não tiver variantes cromáticas ou físicas a saturação do mercado será mais rápida, se tiver dar-se-á a mesma situação que nos canários e mesmo nos periquitos e mandarins, com modas internas, com algumas variedades mais populares do que outras, e permitindo um escalonamento dos preços. Se a espécie for popular como ave de exposição, a procura de aves de alta qualidade permitirá sempre sustentar os preços embora traga consigo a segregação entre aves e criadores e exposição e "normais".

Para evitar a súbita desvalorização das suas aves e consequente perda económica, o criador tem 3 estratégicas básicas. A primeira, e a mais óbvia, é assim que vê que o mercado está à beira de um "crash" nos preços vender tudo o que tem, em alternativa pode-se tentar arranjar mais valias que distingam as suas aves das da concorrência, por exemplo criá-las à mão para elas ficarem mais mansas, no caso dos canários, mandarins etc. tentar ganhar os concursos mais importantes, nomeadamente o nacional. Por último há a solução de aguentar e esperar que todos os outros desistam e em consequência os preços subam.

O problema a nível básico na avicultura nacional é a incapacidade de se produzir o suficiente para abastecer o mercado causando dificuldades no autocontrolo dos preços pelas leis da oferta e procura, próprias dos mercados. As excepções são raras, conseguimos criar canários em número suficiente mas não canários de qualidade em número suficiente, além de que o nível de produção é muito instável, o criador que num ano tira 300 canários pode no ano a seguir só tirar 30, somos auto-suficientes em mandarins e bengalins nalgumas zonas do país mas não noutras, e ainda por cima com a tendência generalizada de usar bengalins como amas, em determinadas alturas não há bengalins que cheguem para os criadores que os usam como amas. Bengalins de bom nível, criados e seleccionados para exposição são raros. O mesmo acontece frequentemente com mandarins de nível de exposição, em oposição aos que surgem vulgarmente no mercado.

O mercado dos javas e das rolas diamantes é mais estranho, em javas é normal haver escassez, alternada com abundância. Em Portugal não há criadores que apostem a sério nesta ave e logo ficamos dependentes do estrangeiro, porque muitos avicultores no inicio começam com Javas, mas depois os abandonam. O mesmo é válido para as Rolas diamante, ora isto é estranho uma vez que estas duas espécies têm sempre procura e os preços são relativamente estáveis.

Nos psitacideos só somos realmente auto-suficientes em periquitos ondulados, caturras e Roseicollis, personatas e fischers. Para acabar com esta tendência é altura dos criadores de psitacideos se especializarem, não vale a pena tentar ter todas as espécies, afinal elas são mais de 300. Em vez de ter Agapornis, roselas, Ringnecks, papagaios, conures, catatuas e araras, porque não ter só papagaios e conures e criá-los a mão para o mercado de estimação, ou então porque não o grupo das roselas, são bonitas e têm sempre saída? Se houver espaço e dinheiro há sempre as catatuas e araras, e se não houver dinheiro e o espaço for uma marquise em vez de ter Agapornis, pode-se optar por forpus ou catarinas. Os forpus têm a vantagem de ser fácil distinguir os sexos e as catarinas são muito sossegadas e não fazem barulho, algo que os vizinhos iram apreciar.

Portanto para reduzir as modas, o meu conselho é: encontrem um grupo de aves que se adequem à vossa situação e especializem-se, afinal não vale a pena estarmos todos a criar as mesmas aves ou vale?