Alterações da Plumagem Associadas aos Desequilibrios Nutricinais em Psitacídeos

 


Existem no mundo aproximadamente 344 espécies de psitacídeos, sendo o Brasil o primeiro país em número de espécies, contando atualmente com 72.

Autora: Médica Veterinária Erica Couto 


 

 

Existem no mundo aproxi-madamente 344 espécies de psitacídeos, sendo o Brasil o primeiro país em número de espécies, contando atualmente com 72. Entre todas as aves de estimação, os psitacídeos têm sido os mais populares, com maior número de espécies criadas pelo homem (BROWN, 2000). No Brasil, apesar de não haver dados oficiais e de ser legalmente proibido a criação de animais da fauna silvestre, sem permissão expressa do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), estima-se que grande número de papagaios, periquitos, jandaias e araras sejam criados em casa como animais de estimação. Destes animais a quase totalidade vêm da natureza e, em boa parte dos casos, são mantidos precariamente pelos proprietários (CARCIOFI, 1996b).

Como conseqüência do desconhecimento das necessidades nutricionais dos psitacídeos (em cativeiro) e da desinformação dos proprietários quanto aos princípios básicos que os orientem na alimentação de suas aves, as doenças nutricionais são uns dos problemas mais prevalentes na clínica de aves (KOLLIAS, 1995; ULLREY et al, 1991).

Os proprietários acreditam que as aves estão saudáveis quando apresentam-se com apetite e possuem peso normal, embora a rigor não saibam o que a ave está ingerindo. Assim se o animal está consumindo sementes ricas em gorduras, ou alimentos ricos em calorias, poderá apresentar o peso normal, porém estar desnutrido, uma vez que nem todas as necessidades serão supridas (KOLLIAS, 1995). Um animal desnutrido apresenta diminuição de sua capacidade imunológica, estando mais susceptível às infecções e doenças sistêmicas (MACWHIRTER, 2000).

Um dos problemas que podemos encontrar na clínica de aves é a anormalidade de plumagem associada aos desequilíbrios nutricionais. A seguir algumas delas: 
As marcas de estresse (chamadas linhas de stress), que são defeitos lineares (linhas escuras) horizontais no sentido da largura da pena, estão associadas à liberação de cortisona durante a época de formação, podendo ser causadas por esquemas de alimentação irregulares e deficiências nutricionais, particu-larmente do aminoácido metionina (MACWHIRTER, 2000).

Já a coloração apagada das penas pode ser causada por deficiência de carotenóides e xantofila (pigmento carotenóide lipossolúvel, classificado como pigmento lipocromo (JONES et al, 2000)), que são provenientes dos vegetais. Nas penas estes pigmentos são encontrados em glóbulos de gordura, e dão origem às cores vermelha, laranja e amarela (MACWHIRTER, 2000). Este fenômeno é denominado de xantocroísmo ou flavismo (eliminação parcial da melanina) como o luteinismo (eliminação total da melanina), ocorre tanto em natureza como em cativeiros. A cor verde de vários Psitacídeos brasileiros é produzida, na pena, através da incidência da luz na melanina (negra) que reflete uma cor estrutural azul que sobreposta ao lipocromo amarelo, dá a impressão da pena possuir coloração verde (SICK, 2001).

Uma vez que o azul é uma cor estrutural, ou seja, depende da refração da luz na camada esponjosa dos ramos das penas, e não da ocorrência de pigmentos, a carência de aminoácidos, que afeta a estrutura da queratina das penas, pode levar a alteração desta cor nas penas. Todavia a natureza exata dessa deficiência ainda não foi esclarecida. Uma vez que o verde geralmente é uma combinação de pigmentos amarelos (lipocromo) sobre o azul estrutural, a mudança de cor do verde para o amarelo é uma ocorrência comum nas aves, e provavelmente se deve à perda do azul estrutural (MACWHIRTER, 2000).

No xantocroísmo ou flavismo, as aves têm uma coloração amarelo-esverdeada, chamada de canela pelos criadores, sendo que a íris possui a cor normal. No luteinismo, a ave possui uma cor amarelo ouro, o tom das penas vermelhas se intensifica e a íris é vermelha, lembrando o albinismo. Não é raro que, depois de alguns anos de cativeiro, certos psitacídeos maculem-se de amarelo, e as penas amarelas porventura existentes em espécimes cativos podem ser substituídas por outras normais na muda subseqüente. Este fenômeno está ligado a uma alimentação excessivamente gordurosa, que favorece a aspiração de maior quantidade de lipocromos pela pena em crescimento. Uma vez que a alimentação da ave é balanceada, as penas voltam a sua coloração normal verde (SICK, 2001).

Penas de cor escura podem se tornar mais claras em aves submetidas a uma dieta deficiente em tirosina ou cobre, já que esses nutrientes são essenciais para a formação de melanina (MACWHIRTER, 2000).

Outra causa que desencadeia alteração de cores das plumas, está associada a hepatopatias. A mudança de cor do azul ou cinza para o preto, pode ser observada em casos de doenças hepáticas ou má nutrição, e acredita-se que seja causada por uma alteração na estrutura da queratina, da camada esponjosa; o que impede a refração normal da luz das penas. Dessa forma, os grânulos de melanina (casos estejam presentes) absorvem a luz de todos os comprimentos de onda, dando a impressão visual de preto (MACWHIRTER, 2000).

Já o arrancamento das penas pode ser iniciado devido à presença de pele seca, com descamação e prurido, o que pode estar associado à deficiência de aminoácidos como arginina e niacina, além da deficiência de ácido pantotênico, biotina, ácido fólico, sal, vitamina A e desequilíbrio de ácidos graxos. Excesso de gordura na alimentação também tem sido apontado como causa de auto mutilação (arrancamento das penas). (MACWHIRTER, 2000).

Há ainda a necessidade de se realizar novos estudos, pois necessita-se de maiores informações sobre a nutrição dos psitacídeos, e lembrando que as extrapolações inter-espécies devem ser cuidadosas, observando assim a biologia até o habitat das espécies envolvidas (KOLLIAS, 1995).

Em cativeiro, devido a grande disponibilidade de alimentos, os psitacídeos não apresentam a capacidade de balancear nutricionalmente sua dieta (RUPLEY, 1999; FORBES, 1998; KOLLIAS, 1995; ULLREY et al , 1991), ficando a ingestão de nutrientes condicionada a apetibilidade particular de cada ave frente aos alimentos oferecidos (CARCIOFI, 1996b); além de poderem desenvolver o monofagismo, hábito de ingerir apenas um tipo de alimento (KOLLIAS, 1995), práticas que vão transformar uma dieta balanceada numa ingestão totalmente desequilibrada (MACWHIRTER, 2000). Atentando-se ainda para a disponibilidade dos nutrientes, pois esta varia, sendo afetado pela espécie animal, tipo de trato gastrointestinal, pela dieta, idade, estado fisiológico, temperatura ambiental, nível de consumo, processamento do alimento, necessidades nutricionais, doenças, parasitas e pelo estresse (MACWHIRTER, 2000; FORBES, 1998).

Recomenda-se a utilização de 60% de dieta comercial (ração peletizada ou extrusada), que é de fácil acesso aos proprietários no mercado veterinário brasileiro, e 40% de mistura caseira (a base de frutas, verduras e legumes frescos) (KOLLIAS, 1995), evitando assim o tédio da utilização apenas da ração. Nessa prescrição de uma nova dieta, deve-se atentar à escolha de alimentos de boa palatabilidade e valor nutricional; estes devem ser oferecidos de maneira a assegurar seu consumo, que deve sempre ser monitorado pelo proprietário (MACWHIRTER, 2000; CARCIOFI, 1996b).